Ataques a kibutz destruíram sonho de coexistência pacífica entre israelenses e palestinos

Ronen Zvulun/Reuters – 15 de outubro de 2023

Moradores de comunidades agrícolas israelenses defendiam projetos para gerar paz e estabilidade no território

Entre casas queimadas em Kfar Aza, um militar israelense mostra uma foto de Ofir Libstein, assassinado no ataque do grupo terrorista Hamas a esse kibutz em 7 de outubro. A visão desse defensor da paz "também morreu aqui", afirma.

O cheiro de morte continua impregnado no ar de Kfar Aza, onde 62 pessoas morreram e 18 moradores foram sequestrados pelo Hamas, segundo um balanço divulgado por uma autoridade militar israelense durante uma visita aos meios de comunicação dessa fazenda coletiva. O ataque do grupo terrorista deixou cerca de 1.200 mortos em Israel, em sua maioria civis, segundo as autoridades. Os kibutzim próximos à Faixa de Gaza foram um dos alvos do Hamas.

Desde esse dia, mais de 11 mil pessoas morreram devido aos bombardeios israelenses em represália contra a Faixa de Gaza, território controlado pelo Hamas, segundo o Ministério da Saúde do grupo terrorista. Entre as vítimas em Kfar Aza havia fervorosos defensores da paz com os palestinos.

Ofir Libstein, chefe do conselho regional das comunidades fronteiriças com Gaza, era um deles. Segundo seus familiares, morreu lutando contra combatentes do Hamas em Kfar Aza. Libstein defendeu um projeto de "paz econômica", com a esperança de resolver o conflito que opõe Israel e os palestinos há décadas, explicaram seus entes queridos à AFP.

Libstein tinha um plano para construir uma zona industrial comum ao longo da fronteira a fim de criar empregos para milhares de palestinos da Faixa de Gaza, onde vivem 2,4 milhões de pessoas.

"Ele se esforçou para romper o ciclo de violência e de ódio com amabilidade e humanidade", contou à AFP uma de suas conhecidas, a rabina Nancy Myers, moradora da Califórnia. A morte e o sequestro de "tantos israelenses pró-paz que viviam na fronteira com Gaza (...) tornarão muito mais difícil a coexistência pacífica entre palestinos e israelenses", assegurou.

"Ironia cruel"

O comandante israelense Nir Boms, que acompanhou a visita, afirmou que alguns moradores de Gaza que receberam permissão para trabalhar nas terras agrícolas dos kibutzim estiveram envolvidos na organização do ataque de 7 de outubro, fornecendo informação ao Hamas. A AFP não conseguiu verificar essa afirmação.

"Há uma ironia cruel no destino de Ofir", declarou Leon Goldsmith, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, que se reuniu em julho com Libstein durante um encontro universitário. "Ofir e outras pessoas nesta região tinham boas intenções."

As autoridades israelenses organizaram inúmeras visitas para a imprensa internacional a kibutzim atingidos. A de Kfar Aza foi proposta pelo Jerusalem Press Club e supervisionada pelo Exército. Durante a visita, o grupo teve que encontrar abrigo quando uma sirene anunciou lançamento iminente de foguetes. Os disparos de artilharia do Exército sobre Gaza, de posições próximas, fizeram o kibutz tremer.

Maayan
, uma mulher de 38 anos cujos pais morreram em Kfar Aza, externou sua angústia diante do debate polarizado, em muitos países, entre "pró-israelenses" e "pró-palestinos". "Estou a favor da paz", afirmou à AFP, pedindo que seu sobrenome não fosse divulgado para preservar sua privacidade. "Meus pais teriam dito o mesmo."

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