Trump fala em reunião 'dinâmica' e Lula cita China ao pedir mais investimentos dos EUA

Lula e o Trump durante encontro nesta quinta na Casa Branca. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Lula voltou a classificar a relação com Trump como "muito boa"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apelou para o "fator China" ao pedir mais investimentos dos EUA no Brasil durante entrevista na Embaixada em Washington nesta quinta-feira (7), após um encontro de mais de três horas com o líder americano Donald Trump, que avaliou a reunião como "muito boa" em uma publicação na Truth Social.

A grande surpresa pós-encontro foi o cancelamento da coletiva de imprensa que os dois fariam juntos.

Segundo o petista, os EUA perderam o posto de maior parceiro comercial do Brasil ainda no século XX, depois que Pequim passou a buscar mercadorias que só o país teria a capacidade de produzir na escala demandada.

"O Brasil passou a ter a China como principal parceiro comercial por volta de 2008, quando os EUA perderam sua hegemonia. Eu disse a Trump que é importante que os EUA voltem a ter interesse nas coisas do Brasil, muitas vezes fazemos licitação internacionais e os EUA não participam, enquanto os chineses participam", disse.

Segundo o presidente brasileiro, Washington deixou de olhar para a América Latina como um campo de oportunidades, focando seus objetivos em combater o narcotráfico, assim como a União Europeia reduziu sua atenção da região e da África após a conquista do Leste Europeu. "Agora percebem a importância da América Latina nesse mundo conturbado", declarou.

Lula voltou a classificar a relação com Trump como "muito boa". Ele chegou a brincar com o termo "amor à primeira vista", uma possível referência à "boa química" mencionada pelo líder americano durante um rápido encontro nos bastidores da ONU em setembro.

Mais cedo, o Presidente Donald Trump disse por meio de uma publicação na Truth Social que a reunião realizada na Casa Branca com o "dinâmico" presidente Lula foi "muito boa" e teve entre seus principais temas comércio e tarifas. O encontro ocorreu em Washington, em meio a uma tentativa dos dois governos de reduzir tensões acumuladas na relação bilateral.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido por Trump na Casa Branca nesta quinta-feira (7). (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido por Trump na Casa Branca nesta quinta-feira (7). (Foto: Ricardo Stuckert/PR)


"Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o muito dinâmico presidente do Brasil. Discutimos muitos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas. A reunião foi muito boa", escreveu Trump.

Na mesma publicação, o presidente americano afirmou que representantes dos dois países deverão se reunir no futuro para tratar de "certos pontos-chave" discutidos no encontro. O líder republicano também disse que novas reuniões serão marcadas nos próximos meses, "conforme necessário".

A declaração pública de Trump adotou tom positivo após uma agenda cercada de expectativa. Após a longa conversa, o presidente brasileiro publicou fotos do encontro com Trump.

Lula chegou à Casa Branca nesta quinta com cerca de 15 minutos de atraso e conversou com Trump a portas fechadas, numa reunião que durou cerca de 3 horas. Estava previsto uma coletiva dos dois líderes com a imprensa, mas essa coletiva não ocorreu. Lula deixou a Casa Branca rumo à Embaixada do Brasil nos EUA logo após o fim da conversa.

Dentro da chamada "visita de trabalho", os dois presidentes também estenderam as conversas durante um almoço na Casa Branca. Lula deve conceder entrevista coletiva na Embaixada do Brasil em Washington.

Este é o segundo encontro oficial entre Trump e Lula: em outubro, eles já haviam se reunido na Malásia durante a cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), após terem se "esbarrado" na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, no mês anterior.

Lula e Trump classificaram encontro como positivo e equipes avaliam novas reuniões em poucas semanas para discutir interesses bilaterais. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
Lula e Trump classificaram encontro como positivo e equipes avaliam novas reuniões em poucas semanas para discutir interesses bilaterais. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)


O encontro desta quinta-feira foi precedido por renovada trocas de farpas entre os dois governos: as críticas de Lula às ações americanas no Irã e em Cuba; a expulsão dos Estados Unidos de um delegado da Polícia Federal brasileira que havia atuado na prisão temporária do ex-deputado federal Alexandre Ramagem no país norte-americano – o governo Lula reagiu retirando as credenciais de um adido da agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) no Brasil; uma investigação americana sobre práticas comerciais brasileiras; e a intenção de Washington de declarar os grupos criminosos brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, algo a que Brasília se opõe.

O petista foi acompanhado para a reunião desta quinta-feira de cinco ministros: Mauro Vieira, das Relações Exteriores; Dario Durigan, da Fazenda; Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia; Márcio Rosa, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; e Wellington César Lima e Silva, ministro da Justiça e Segurança Pública.

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, também faz parte da comitiva, mas não esteve no encontro dos dois líderes de Estado.

Sem acordos firmados, EUA e Brasil manterão contato pelas próximas semanas para discutir interesses

A abertura da coletiva na Embaixada do Brasil em Washington foi marcada por falas dos cinco ministros que acompanharam o presidente nos EUA. Eles detalharam o teor das conversas desta quinta-feira, que terminaram sem acordos em temas de interesse bilateral.

Os principais focos de debate no encontro foram o comércio bilateral, afetado pelas tarifas impostas pelos EUA, a cooperação no combate a crimes transnacionais e a exploração de minerais críticos.

Apesar do impasse nas negociações, Lula e sua equipe demonstraram otimismo após o encontro.

O ministro Márcio Rosa disse na coletiva que os países devem retomar o diálogo nas próximas semanas para discutir temas que carecem de resultado. Ele cita a investigação da seção 301, usada para apurar possível relação desleal de comércio por parte do Brasil, e as sobretaxas cobradas pela Casa Branca, que classificou como "não cabíveis". 

Lula fala sobre embargo em Cuba e "invasão" dos EUA no Irã

O presidente Lula disse nesta quinta-feira que Trump teria aberto a ele durante a reunião que tiveram na Casa Branca que não planeja invadir Cuba. "Se o que disse a tradução está correto, ele me disse que não pensa em invadir Cuba. Isso eu escutei da intérprete", declarou o presidente durante a entrevista coletiva na embaixada brasileira em Washington.

O petista acrescentou que se colocou "plenamente à disposição" se o líder republicano "precisar de ajuda" para abordar a situação de Havana, cujo regime é um aliado do governo brasileiro.

Lula voltou a criticar a guerra no Irã, outro países aliado, dizendo que os países deveriam solucionar as diferenças no diálogo e não por meio da guerra.

"Eu acredito muito mais no diálogo do que na guerra. Eu acho que a invasão do Irã, ela vai causar mais prejuízo do que ele [Trump] está imaginando", afirmou.

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