"Israel realizou o ataque em Doha, o que foi algo terrível", disse Kushner. "E, obviamente, a operação foi malsucedida do ponto de vista militar. E isso acabou levando Israel a ficar isolado internacionalmente"
Jared Kushner, genro do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e assessor especial da Casa Branca, além de uma das principais figuras do governo na diplomacia relacionada à Faixa de Gaza, fez duras críticas neste fim de semana aos ataques de Israel em Doha, no Catar, realizados no ano passado. Ao mesmo tempo, ele reconheceu que Washington aproveitou a repercussão internacional provocada pelo ataque para aumentar a pressão sobre Israel e pressioná-lo a avançar em direção a um acordo.
Falando por videoconferência durante uma conferência em Kiev, Kushner descreveu de forma contundente a operação israelense.
"Israel realizou o ataque em Doha, que foi uma coisa terrível", disse Kushner. "E, obviamente, foi uma operação militar malsucedida. E isso levou Israel a ficar isolado internacionalmente."
Kushner foi além e afirmou que o governo Trump viu uma oportunidade diplomática na crise e aproveitou a nova conjuntura para pressionar Israel a chegar a um acordo.
"Usamos essa dinâmica para pressioná-los a chegar a um acordo com o qual, hoje, eles estão bastante satisfeitos", disse ele. "Naquela época, eles estavam um pouco desconfortáveis com o que estávamos pressionando-os a fazer", afirmou Kushner.
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| Fumaça sobe após ataque de Israel contra líderes do Hamas em Doha, no Catar, em 9 de setembro de 2025. (Crédito: REUTERS/Ibraheem Abu Mustafa) |
Na avaliação de Kushner, a pressão acabou dando resultado.
"No fim das contas, isso acabou sendo ótimo para eles", disse ele, referindo-se a Israel. "E acabou sendo ótimo para o povo de Gaza, porque agora temos um novo governo lá."
Governo Trump considera ataque de Israel em Doha um fracasso, diz Kushner
Ele acrescentou que a nova estrutura de governo deverá assumir o controle à medida que o processo de desmilitarização avançar.
"Obviamente, essa estrutura deve assumir em breve, assim que avançarmos no processo de desmilitarização", disse Kushner.
O relato de Kushner oferece uma rara visão pública sobre como a equipe de Trump enxerga o caminho que levou ao acordo sobre Gaza. O que, na época, parecia ser um dos mais sérios reveses diplomáticos de Israel acabou se tornando, na perspectiva de Washington, uma oportunidade capaz de aproximar as partes de um acordo mais amplo.
Ele ressaltou, no entanto, que essa oportunidade, por si só, não teria sido suficiente sem todo o trabalho preparatório realizado anteriormente.
"Precisávamos encontrar essa oportunidade para então colocar tudo em prática", disse Kushner. "Mas, se não tivéssemos feito todo o trabalho preparatório antes, quando a oportunidade surgiu, nada teria acontecido."
As declarações lançam uma luz incomum sobre a visão interna do governo Trump a respeito da diplomacia em torno de Gaza: não como um processo puramente linear ou previamente determinado, mas como uma combinação de meses de preparação e da capacidade de aproveitar uma crise inesperada provocada por uma ação militar israelense.
A linguagem usada por Kushner também chamou atenção pela franqueza. Ao descrever o ataque em Doha como "uma coisa terrível" e "malsucedido como operação militar", ele fez um reconhecimento público relativamente raro, vindo de uma figura de alto escalão próxima a Trump, de que o governo considerou a operação não apenas um fracasso tático, mas um episódio que causou danos estratégicos mais amplos a Israel ao deixá-lo internacionalmente isolado.
Até então, avaliações nesse sentido haviam surgido principalmente em conversas privadas e briefings reservados, e não em declarações públicas tão explícitas.
Ao mesmo tempo, Kushner deixou claro que, em sua avaliação, os danos acabaram fazendo parte do caminho para um resultado melhor. Segundo ele, Israel pode ter ficado desconfortável com parte da pressão exercida por Washington na época, mas agora está "bastante satisfeito" com o acordo resultante.
Sua mensagem, portanto, teve dois aspectos: o ataque em Doha enfraqueceu Israel diplomaticamente, mas essa fragilidade deu a Washington poder de influência — influência que, segundo o governo Trump, foi então utilizada para avançar com uma reestruturação mais ampla de Gaza e com os acordos para o período pós-guerra.


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