EUA pressionam por zonas livres do Hamas em Gaza, diz reportagem


Washington estaria avançando com um plano para dividir Gaza em zonas controladas pelo Hamas e pelas IDF, além de construir comunidades temporárias para palestinos deslocados no sul — começando por Rafah — o que tem gerado preocupação na região

Os Estados Unidos estão avançando discretamente com um plano para dividir a Faixa de Gaza em zonas de controle e começar a construir moradias temporárias para palestinos em áreas controladas pelas IDF, informou o Wall Street Journal nesta sexta-feira.

A iniciativa relatada representa uma mudança nas expectativas sobre o desmantelamento do Hamas, que está formalmente listado como um objetivo da segunda fase no plano de paz de 20 pontos proposto pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, mas cuja realização não é esperada tão cedo.

De acordo com a reportagem, o plano dos EUA marcaria as áreas sob controle do Hamas em vermelho, enquanto as zonas controladas pelas IDF seriam marcadas em verde. Dentro dessas zonas verdes — designadas como áreas além de uma "linha amarela" que demarcaria a influência do Hamas — Washington estaria promovendo a construção das chamadas "comunidades alternativas seguras" para palestinos deslocados.

Autoridades americanas disseram ao Wall Street Journal que equipes de engenharia já foram enviadas para Gaza para iniciar o planejamento da remoção de escombros e de artefatos não detonados, preparando o terreno para esses novos locais. Embora a construção ainda não tenha começado, as comunidades planejadas forneceriam moradia temporária, educação e serviços de saúde — incluindo escolas e hospitais — até que a reconstrução permanente possa ocorrer.

O primeiro local previsto é Rafah, uma cidade no sul de Gaza que, nos últimos meses, tem estado amplamente sob controle das IDF. Apesar dos combates em andamento contra terroristas do Hamas ainda entrincheirados na rede de túneis subterrâneos, as forças israelenses mantêm controle operacional na superfície. Segundo fontes militares, alguns membros do Hamas teriam emergido dos túneis na sexta-feira; vários foram mortos e outros capturados. O chefe do Estado-Maior das IDF, tenente-general Eyal Zamir, afirmou na sexta-feira que todos os terroristas restantes em Rafah seriam eliminados ou forçados a se render.

Fontes tanto em Israel quanto nos EUA confirmaram ao jornal que o local em Rafah está sendo considerado como projeto-piloto para o primeiro assentamento temporário.

Terroristas do Hamas foram presos pelas Forças de Defesa de Israel em Rafah na sexta-feira | Foto: IDF
Terroristas do Hamas foram presos pelas Forças de Defesa de Israel em Rafah na sexta-feira | Foto: IDF

A iniciativa surge em meio a um debate internacional sobre a viabilidade de reconstruir Gaza enquanto o Hamas permanece no poder. O Wall Street Journal observou que nenhum país potencialmente doador demonstrou disposição para financiar a reconstrução em áreas controladas pelo Hamas.

Segundo a reportagem, os países árabes também levantaram objeções à divisão da Faixa de Gaza em zonas de controle de fato e ao estabelecimento de moradias supervisionadas por Israel. O Egito, em particular, estaria preocupado com um possível transbordamento de Rafah para a Península do Sinai e advertiu contra qualquer medida que possa incentivar o deslocamento através da fronteira.

O plano apoiado pelos Estados Unidos ainda está em estágios iniciais, e sua implementação provavelmente dependerá da continuidade dos desenvolvimentos militares e da coordenação política entre Israel, os EUA e atores regionais.

Quem fará a triagem?

Uma grande dúvida paira sobre a questão da segurança nas comunidades temporárias planejadas em Gaza. Ainda não está claro como a iniciativa apoiada pelos EUA garantirá que apenas civis inocentes — e não terroristas do Hamas — entrem nessas zonas.

Equipes do Hamas procuram restos mortais de reféns na Cidade de Gaza | Foto: REUTERS/Dawoud Abu Alkas
Equipes do Hamas procuram restos mortais de reféns na Cidade de Gaza | Foto: REUTERS/Dawoud Abu Alkas

Uma ideia, segundo a reportagem, é envolver milícias locais em Gaza que foram armadas por Israel. Essas milícias contam com apoio israelense e, de acordo com fontes israelenses e árabes, esta foi uma das propostas em discussão.

Alguns desses grupos — como o liderado por Yasser Abu Shabab — já operam comunidades de fato nas áreas sob seu controle. Abu Shabab, por exemplo, administra uma escola e lojas que vendem produtos básicos. "Estamos abertos a cooperar com todas as partes que buscam paz e estabilidade em Gaza", disse ele ao Journal.

No entanto, um funcionário dos EUA citado na reportagem afirmou que Washington não está considerando, no momento, utilizar essas milícias, observando que alguns de seus membros são vistos como criminosos e provavelmente não seriam eficazes contra o Hamas caso ocorra um confronto.

Em vez disso, fontes americanas expressaram esperança de que as zonas controladas pelo Hamas "encolham" com o tempo até desaparecerem. Nesse cenário, uma Força Internacional de Estabilização (ISF), respaldada por um mandato do Conselho de Segurança da ONU, assumiria as responsabilidades de segurança em Gaza, atuando ao lado de uma força policial palestina.

Durante o período de transição, o Conselho da Paz proposto pela administração Trump supervisionaria a governança civil e a reconstrução do enclave, com o controle de longo prazo sendo eventualmente transferido para um órgão de governo palestino.

O dilema das armas

O Hamas, por sua vez, continua rejeitando toda a proposta, denunciando-a como uma forma de "tutela internacional" sobre Gaza que a separa do povo palestino. O grupo rejeitou a resolução do Conselho de Segurança da ONU desta semana, que endossa o plano, chamando-a de "uma tentativa de impor uma nova ordem que serve a interesses estrangeiros e prejudica os direitos do povo palestino de resistir à ocupação e de decidir o destino de Gaza por si mesmos".

Jabaliya, norte de Gaza | Foto: AP Photo/Jehad Alshrafi
Jabaliya, norte de Gaza | Foto: AP Photo/Jehad Alshrafi

A Jihad Islâmica Palestina também condenou a resolução, afirmando que ela "elimina a perspectiva de resistência e transforma a ajuda humanitária em uma alavanca política, violando direitos básicos consagrados no direito internacional".

A resolução aprovada pelo Conselho de Segurança inclui uma cláusula que autoriza a força internacional de estabilização a desarmar o Hamas. Essa também é a expectativa de Israel. Mas o Hamas declarou que não entregará suas armas a nenhuma entidade estrangeira — criando um sério desafio para qualquer país que evite um confronto direto com o grupo.

Autoridades israelenses reconhecem que nenhum soldado árabe ou muçulmano provavelmente abrirá fogo contra o Hamas e que, na melhor das hipóteses, tais forças poderão se limitar a funções de policiamento.

No início desta semana, o Ynet informou que o Hamas procurou a Autoridade Palestina em busca de ajuda quanto à questão das armas. Segundo fontes em Gaza, o Hamas propôs transferir suas armas para a AP — não para desarmamento, mas para armazenamento sob custódia da Autoridade Palestina.

"Eles pediram que a Autoridade Palestina abrisse um diálogo e considerasse armazenar as armas. Eles não têm a intenção de entregá-las ou destruí-las", disseram as fontes.

Funcionários da AP acreditam que as chances de tal cenário são mínimas. Alguns sugerem que o Hamas pode estar tentando enganar a AP ou atraí-la para um esquema que acabaria servindo aos interesses do próprio grupo terrorista.

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