Não é 'totalmente de direita': a medida de Trump que vai virar o jogo em Israel

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dá as boas-vindas ao príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, durante uma cerimônia de boas-vindas na Casa Branca, na terça-feira, em Washington, DC. Andrew Harnik/Getty Images

Especialista avalia: para ganhar o Prêmio Nobel e chegar a um acordo histórico com a Arábia Saudita, o Presidente americano planeja impor um governo de unidade em Jerusalém – independentemente de quem vença as eleições | Trump: "Eu disse a Bin Salman: 'Agora é a hora de aderir aos Acordos de Abraão'"

O Presidente americano Donald Trump já está trabalhando para definir a composição do próximo governo de Israel, com o objetivo de garantir uma ampla coalizão capaz de aprovar um acordo histórico de normalização com a Arábia Saudita. É o que afirma, em uma publicação na rede X, o Dr. Kobi Barda, especialista em história política dos Estados Unidos.. Segundo Barda, as manobras americanas impedem, na prática, a formação de um "governo totalmente de direita" após as próximas eleições em Israel e visam um governo de unidade, independentemente da identidade do político que o liderará.

Segundo ele, não importa quem receba o mandato para formar o próximo governo, seja Benjamim Netanyahu, Naftali Bennett, Gadi Eizenkot ou Yair Lapid, Trump se encarregará de "chamar" o candidato e garantir que seja formado um governo que integre as principais forças da política israelense. 

"Se alguém acha que a Arábia Saudita, por um lado, servirá de 'tapete' para a eleição de um governo totalmente de direita, ou que Trump abrirá mão dos sonhos do Nobel e dos interesses dos EUA e da família Trump (eles estão sempre juntos…), e não o chamar, após as eleições, para formar o próximo governo que fará as pazes com a Arábia Saudita, não compreende a forma como Trump influencia a região e coloca todos na linha", escreveu ele.


Segundo Barda, as ações que orientam Trump visam consolidar o que ele define como "o maior de todos". "Aquele por quem o mundo esperou 'apenas' 3.000 anos (por que 3.000? Porque esse é o tempo em que há um conflito entre os filhos de Abraão, em cujo nome se baseia o acordo, Ismael e Isaque) para que chegue o ruivo com a chave para estabelecer a paz, bloquear o projeto "Cinturão e Rota" da China nas disputas de IA e ainda ganhar um Nobel no caminho".

No fim de semana, Trump pediu à Arábia Saudita que aderisse aos Acordos de Abraão e afirmou que o assunto surge de vez em quando nas conversas que mantém com Mohammed bin Salman, o herdeiro do trono saudita. "Agora é a hora de aderir!", disse Trump em um discurso na Flórida, "Acabamos com o Irã. Precisamos aderir aos Acordos de Abraão. Mohammed disse: 'Sim, sim, assim que fizermos isso, assim que fizermos aquilo", e eu disse a ele: 'Mohammed, já fizemos isso'. Agora é a hora. Já tiramos o Irã do jogo. Eles estão fora, e de vez. Precisamos aderir agora aos Acordos de Abraão, e esperamos que todos os países façam parte dos Acordos de Abraão". Além disso, o New York Times noticiou no fim de semana que Bin Salman está pressionando Trump a continuar a guerra contra o Irã e não se contentar com um acordo de cessar-fogo com o regime.

Lançamento de mísseis iranianos contra a Arábia Saudita | Foto: Reuters
Lançamento de mísseis iranianos contra a Arábia Saudita | Foto: Reuters

A guerra com o Irã coloca Bin Salman em uma situação complexa: as exportações de petróleo, principal fonte de renda do reino, estão sendo prejudicadas devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz e, ao mesmo tempo, o Irã ataca alvos no território saudita e de seus aliados na região. Além disso, o jornal britânico "Financial Times" noticiou ontem que o Paquistão está considerando se retirar da aliança de segurança assinada há alguns meses com Riad. Segundo a reportagem, a aliança está começando a pesar significativamente sobre o país, justamente nos momentos em que ele tenta se posicionar como mediador central no conflito no Oriente Médio. O acordo, que estabelece que um ataque a um dos países será considerado um ataque ao outro, tornou-se motivo de profunda preocupação em Islamabad, tendo em vista as trocas de golpes na região e o ataque à base aérea na Arábia Saudita por parte do Irã. Uma fonte paquistanesa a par do pensamento da cúpula do exército admitiu ao "Financial Times": "O acordo saudita está se tornando um problema para nós. Era para ser dinheiro em troca de dissuasão, mas não recebemos novos investimentos sauditas, e a dissuasão fracassou".

Na semana passada, o Dr. Moshe Elad avaliou, em artigo publicado no jornal Ma'ariv, que o confronto direto entre o Irã e a Arábia Saudita representa um divisor de águas nas relações entre os dois países. "O Irã xiita atacou a Arábia Saudita sunita em resposta aos ataques dos Estados Unidos e de Israel em seu território. A Arábia Saudita, considerada uma aliada central dos Estados Unidos, sofreu mais de mil mísseis e drones lançados na primeira semana da guerra", escreveu ele, "Não se trata apenas de um evento militar de grande escala, mas de uma declaração estratégica clara: do ponto de vista do Irã, não há mais linhas vermelhas que impeçam um ataque direto, inclusive contra atores sunitas centrais. A visão de mundo iraniana, orientada por clérigos xiitas e que combina ideologia com poder, não reconhece mais as fronteiras tradicionais de um conflito meramente indireto, e até mesmo as 'amizades' sunitas podem ser vistas como inimigas".

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