Irã envia resposta aos EUA sobre proposta para encerrar guerra no Oriente Médio

Navios no Estreito de Ormuz perto de Bandar Abbas, Irã, 4 de maio de 2026. [Arquivo: Amirhosein Khorgooi/ISNA via Reuters]

Teerã quer manter enriquecimento de urânio por 20 anos, o que contraria Washington

O Irã enviou, neste domingo, 10, uma resposta formal à proposta apresentada pelos Estados Unidos para encerrar a guerra no Oriente Médio. O documento foi encaminhado por meio do governo do Paquistão, que passou a atuar como principal mediador entre Washington e Teerã nas últimas semanas. É o que informou a agência estatal iraniana Irna.

A negociação gira em torno de um memorando provisório com 14 pontos, revelado inicialmente pelo portal Axios. O texto prevê a suspensão das hostilidades, mecanismos de segurança regional e um acordo temporário sobre o programa nuclear iraniano. Este último ponto é o principal impasse entre os dois países.

Os EUA exigem que o Irã interrompa o enriquecimento de urânio por até 20 anos. Teerã aceita apenas uma suspensão limitada, de cinco anos, segundo fontes diplomáticas ouvidas por veículos internacionais.

A proposta norte-americana inclui também uma cláusula de extensão automática: se o Irã voltar a enriquecer urânio antes do prazo acordado, o período de restrição seria ampliado. Em troca, Washington se comprometeria a suspender gradualmente sanções econômicas e liberar bilhões de dólares em ativos iranianos bloqueados no exterior.

A reação do Irã

O tom público adotado por autoridades iranianas, contudo, indica resistência às exigências da Casa Branca. Na quarta-feira 6, o deputado Ebrahim Rezaei, porta-voz da Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento do Irã, afirmou que a proposta revelada pela imprensa dos EUA representa "uma lista de desejos dos norte-americanos".

"Os norte-americanos não vão conseguir em uma guerra fracassada aquilo que não obtiveram em negociações diretas", escreveu o parlamentar, na plataforma X. Horas depois, Rezaei elevou o tom. "O Irã está com o dedo no gatilho e preparado", afirmou. "Se não se renderem e não fizerem as devidas concessões, ou se eles próprios ou seus 'cães' fizerem alguma provocação, daremos uma resposta dura e lamentável."

As negociações ocorrem em meio ao agravamento da instabilidade no Golfo Pérsico. Nas últimas semanas, embarcações comerciais relataram ataques próximos ao Catar depois de ameaças iranianas contra navios ligados aos EUA. O aumento da tensão militar também afetou o tráfego no Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo.

O impacto econômico da guerra já começou a atingir outros países. A alta do petróleo elevou preços de combustíveis e energia em diferentes regiões, o que gerou protestos e pressionou governos europeus e asiáticos.

Paquistão, o mediador improvável

Segundo a agência Reuters, diplomatas envolvidos nas conversas afirmam que Washington tenta separar o cessar-fogo das disputas nucleares mais amplas. A estratégia seria garantir primeiro a redução das hostilidades militares e a reabertura plena das rotas marítimas, deixando temas mais complexos para uma segunda etapa de negociações.

Mesmo assim, o programa nuclear iraniano continua no centro das conversas. Os EUA querem impedir que Teerã mantenha capacidade de retomada rápida do enriquecimento de urânio. Relatórios de Inteligência citados pela imprensa internacional apontam preocupação com estoques armazenados em instalações subterrâneas fortificadas, consideradas de difícil destruição militar. O Irã insiste que seu programa nuclear tem finalidade civil e afirma que não aceitará restrições permanentes impostas sob pressão militar.

Nos bastidores, o Paquistão assumiu protagonismo diplomático raro na região. O governo paquistanês intensificou contatos simultâneos com Washington, Teerã e países árabes do Golfo, com o objetivo de evitar uma expansão regional do conflito.

O Presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou nos últimos dias que as negociações avançaram e classificou as conversas como "muito boas". Apesar disso, autoridades iranianas seguem adotando discurso público agressivo, enquanto o governo norte-americano mantém forças militares mobilizadas na região.

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